25/09/2010

concretude

Caneta é prevenção.
Transforma em
sólidas partículas
um amor vasto pelo mundo inteiro.

22/09/2010

Estrangeira,
Não manjo a cidade,
Não sei,
Não sei essa língua,
Não como,
Não manjo,
Devolvo tua linguagem.
Já digeri.
Mas ainda me embrulha,
Não sei porque.
Deve ser
A sua terra
Que ainda se refestela
Na ínfima pátria pança estômago fôlego e fogo que habitam em mim.

Guerra física.

Minha solidão é alegre,
mas a alegria não cabe num corpo só.
São estados díspares.
A solidão é sólida,
a alegria é gás hélio.
Vivo alegre e em guerra.

18/09/2010

Literal

a fiicção é real?
Afundei no livro como se ele fosse
um elixir,
como se salvasse,
como sexo em que
depois do 3o ato,
o amor revirginasse.

SP


Num plano áspero, é meu alvo.
São Paulo é dura,
mas é concreta.

08/09/2010

Rio: nos comove.
Rio: nos une
Rio:
a cidade ri
Rio junto:
a gente gargalha.

06/09/2010

Auto-ajuda de verdade não existe.
Mas sabedoria sim.

Em um caso, a pessoa encoberta o que é alheio a si - pois diz que nisto encontrou sua vontade autêntica.
Em outro, desencoberta a vontade autêntica para encontrar o que é alheio a si.

23/08/2010

Bem Estar

Ainda bem: tudo passa,
que é pra gente parar nos momentos, parar de passar.

18/08/2010

a escrita é além;
você me escolhe ou escolhe a você, meu bem, e eu escolho um lápis
que escreva
"também".
Coisa sem jeito, imprestável,
é te chamar, criatura que não presta,
pra gente (e eu também não presto)
fazer um esforço em vão.

Mas já adianto sem pagamento: é o melhor serviço que eu conheço.

13/08/2010

Divulgations

Novo BLOG:
BLERG! Regurgitações - textos escarrados, escritos de uma vez só.

www.bler-g.blogspot.com

09/08/2010

Esperar

"A vida é a arte do encontro".
É realmente uma arte, de técnica intuitiva.

Escorei-me numa parede velha e escrevi a ver se passava - aquilo que passou. Tempo passa e eu me sinto mais bonita que é do jeito que ele deve me encontrar, se é que me enxergará. Nessa parede menos velha do que eu.

Dia claro e batuques, Paraty pulsa - eu também, mar do Drummond que bate em todos nós (não no cais). Não sei não escrever. Não não. Sei negar. E fazer.

Meu celular desliga de repente sem avisar, eu passo - ando - vou atrás do que sei pouco e por isso quero ir e saber.
Fico, aguardo, coração espera até onde consegue e mais além. Pois vai.
Antes de quebrar, segue. E talvez sempre.

Telefone vai dizer: "Venha cá."

Todo o tempo fica em cada pessoa. Concentrações.
Mas esse homem cadê?
Virá na mais-espera, mais-aguardo. Ali onde o coração consegue.
E sempre conseguirá.

07/08/2010

A infância
está.
E ao entrar na vida adulta,
a poesia forma um manto
onde a infância está.

04/08/2010

Agora...

...Vou demorar mais pra botar as coisas aqui, pra trabalhar melhor as coisas que ponho!!

01/08/2010

Tempo.
Vou redemoinhar outros ventos, outro tipo dessa coisa, coisa-eu, coisa-nós-todos. Esse troço que me vira, que vira a virada, faz vir, vem, e é o que vier: Amor.

Vou correr, vou até Birigui. Pra perceber que o oposto de não amar
é, em si, a vida.

Minha vó se foi, e em outro papo aprendi: que não sou vítima de nada nessa vida.

quando vesti a corrente que ela me deu, cheia de piedade, a corrente tinha um nó.

depois,

Por acaso, olhei a corrente.
Sozinha, desatou.
Sozinha. Soltou o nó dessa história.

26/07/2010

João
é um chão firme.
Mas entre os grãos dessa terra
se forma
uma colmeia
onde zumbem
os voos, viagens,
os muitos olhares de João.

Ele é surto.
e também rotina.

Abriga minha paixão,
abriga minha guerra.

Força bruta crua.
Pensamento,
braço – barba – uma risada,
cara lunática.
muita estrada.

João está
onde eu vá.
Por toda a minha pele.
Amar,
Viver no mistério.
Não viver isso:
discutir a relação.

23/07/2010

Poema que me espera
assim
pela vida inteira,
me espera assim:
desse jeito meu,
(agora com a mão esquerda
o olho direito
direto
na reta
de chegar
até
lá.)

18/07/2010

Mudar de casa, de vida, sem dúvida, sem dívida,
partir.
Mudar tudo
pra lá longe,
chegar até algum lugar.
Em mim.

Será

Eu tão tola
que vou
sendo
só porque
indo, me
vendo,
vou
e acho que
tudo é
espelho
quebrado:
vidro
cortante,
muito à sério,
muito a mais
do que
de fato
vejo que
será.

12/07/2010

Poema que corre

Quase enlouqueço:
sol, dia
e a avenida
que tem travessas,
todas as travessas, todas
as esquinas
possíveis
e eu paro; e movo,
todo lugar é provável,
bonito
e em toda esquina
há sinal, gente:
movimento,
todas as ruas me levariam
para muitos lugares
distintos,
que confluem,
desembocam
em uma mesma respiração forte,
olhos apetecidos,
em um mesmo peito deslumbrado.
Todos os caminhos cabem em mim,
como em qualquer um,
cabem ao mesmo tempo -
todos -
e estão dentro:
convergem
a um só ponto.
A uma só pessoa.

11/07/2010

Amor é libertação sobre o que os outros pensam,
amor é "foda-se", só posso ser assim,
não vou fingir
que sou
o que
você
pode encarar
(porque o resto não pode
encarar em si),
é foda-se.
Fodamos.
Do único jeito
que sabemos
ser,
de costas, frente,
lado,
Nús
em todas as faces.

08/07/2010

quantum

Vou pro mundo,
vejo eu
em tu:
um eu.
E não há eu,
há tudo.
Vida passa
eu passo
em mim
Enquanto acho na
sarjeta,
na água suja, esgoto:
o encantamento.

Relembrança

Saguão da polícia:
muitas vidas passam ali,
nenhuma fica.
Vida alguma
dentro e fora de mim.
Exceto pelo sol
que me queima na rua
e que - corpo marcado -
me queimou
à noite inteira.

30/06/2010

Já passo dessa
já tô noutra
exquina
Fui-me
indo
Vou pra
já, lá,
Fui-me
vendo
ir no vento
bubuia a dois
ou só,
Repente de cidade
de repente
cheguei só,
de repente
fui pro sol
e agora vou.
Tchau.

27/06/2010

Fluído

Vou vou, venho vou,
cotidiano: fluxo: amor.

18/06/2010

Saudade bruta,
monstra,
saudade brutamonte,
Que me empurra pelas costas dizendo
vai lá, vai lá, vai lá,
que me empurra pelo sexo, boca
vai lá
pra um amor
que já não há

Vômito

Não quero escutar teu consolo,
não quero, minha cara,
o dever.
Não quero o murro,
o corte,
a tua ajuda
que estrangula você.

17/06/2010

Sintaxe

plural oculto.
ex: nosso corpo abraçado.

15/06/2010

ansiedade

Casa fechada,
pulso fora dela,

Artérias jogam sangue
pro futuro.

E eu estou lá.

12/06/2010

Amor não dói. O que dói é não dar amor.

07/06/2010

esse amor fica em mim como uma espaço
de possibilidade pra frente que se
põe pros outros, pro mundo solto e que busca um prumo, o amor é esse meu rumo pra
olhar pro que desejo
é meu sexo só, é meu pedaço é meu ímpeto lampejo, é meu ver um fim.
esse amor é tudo o que pedi, pra, sem te ter, passar a ter a mim.

06/06/2010

sinto que é um mal que vem pro bem, mas nossa, é tão difícil,
mas sinto que é um mal que vem pro bem, mas nossa, é tão difícil, mas sinto que é um mal
que vai.

Embarque e desembarque

"Quero ir quero
ficar
Não, o que quero
é criar
raiz
em algum lugar
desse tempo todo",
Pensava, querendo ser
grande,
ter trampo ter
casa,
pensava sem chão.

Até que alguém me deu uma trombada,
e eu acordei
no limbo do sagão de espera.

Espera e vai,

que vem.

05/06/2010

Momento triste na vida e é sábado. Tô na rua, páro um minutinho, pensando onde ir.
Aí um mendigo passa, olha pra mim.
E me dá bom dia.

Quase chorei de emoção.
Madrugada na casa dos outros
o que sai de bom na insônia?
Caneta instrumento
De alívio e tortura
Como se assim
Fossem obrigadas a vir as ideias que já estão aqui.
Me pairando:
Me fazendo pairar.

29/05/2010

amor em prática
é sem função

o amor É a prática

28/05/2010

Muito prazer.

Vou.
Rastejo.
Pingo
nessa lua.
Um café nas veias coração
pra acordar minha água,
mesma rua,
fresco
o desejo
e minha
cara, carne
crua
sangrando
e de gatinhas
quatro
mas, na verdade,
aos saltos:
doidos
enrubescidos
de
(você
- cobra peçonhenta)
de
(Passar já sem alma: sem honra)
de
(nessa rica ginga fria)
de te
(absurdo
horror
de homem)
de
simplesmente
te querer.

Dicionário das palavras sem nome

Depremeditando:
verbo que só existe no gerúndio
(verbo-estado-involuntário, e não verbo-ação)

1.estado vegetativo da alma
2.tempo de criações esquizofrênicas
3.paródia infame do nome da banda Premê
4.tempo de chorar
5.tempo pra amar
6.vontade de defenestrar
7.e voar
8.buraco negro localizado dentro do peito humano
9.alternativas infinitas, por ter qualquer significado
10.ser humano que é tudo então não é ser humano
11.sofrimento
12.desindividuação

Desindividuação:
s. f.

1.ação de não agir
2.ser e não sentir
3.sentir tudo e não ser
4.corpo que é só pele
5.tristeza
6.medo ou revolta

(tente marcar a alterntiva correta,
mas todas são reais e fictícias.)

tu bi continued.

27/05/2010

Razão em excesso

O cálculo preciso da vida passa à frente da vontade
incógnita
de se viver.

25/05/2010

Ele pode ir pra qualquer lado,
eu foco fogo,
destino.
Ele deita e mede,
eu lembro
dessa minha sina,
enlouqueço
com as possibilidades
do dia.
Sou eu que preciso
ter paciência.
Ou
então:
estopim.

24/05/2010

amor é o chão,
viagem
a pé,
é rodar o mundo esfera
à espera
de apenas andar,
viver tudo o que há
no caminho:
em si.

23/05/2010

Contra a Culpa

essa é do Fabricio, releitura da Oração de São Francisco de Assis
(Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado; )

Ó Mestre,
Fazei com que eu procure mais
errar
que ser errado.

5-à-sec

amor é serviço
que não se paga
eu mesma esfrego
e lavo a minha alma

22/05/2010

Foto,
corpo,
ôco
que eu recheio.
Sonho
velho
mas
que é meu
mesmo.
Minha vó,
minha amiga,
saudades
dor,
e uma incrível
felicidade.

21/05/2010

Sem medo
sem devo
sem fome
sem nome
ando na rua.
Sem nem saber
o que você quer
de
mim.
Sem nem querer
saber,
sem pensar
que você
amanhece o dia
sem pensar
que teu amor
(água fria)
vai crescer meu tesão,
mas pensando
que somente
te querer
é o que eu mais
(sumo suco)
quero
agora
ter.
não quero deitar na cama porque a saudade não sei de quem me pega. me ferra
quando esqueço um poema parece que tudo se fecha. me cerca
essa parede sólida, em toda direção.
não ter chão
é igual clausura solitária
um teia uma aranha
um tédio
em guerra

20/05/2010

O ruim é eu
mesmo
que crio
o ruim é meu
de estimação
zero
nenhuma
mas é meu

é meu,
que cuido
crio
não largo
porque?
não largo porque
quero
eu.

Quero
meu
ruim
é
meu
só pra não
ter
meu
gozar.
meu amor me afoga, me afaga
mas naufraga
meu amor não basta
por si só, meu amor chega
na cama e se larga
dorme
meu amor
enorme
fica
aqui
boiando só.
Mas é amor, é assim
do jeito que a gente
não espera
é guerra
fria
vez em quando
mas é guerra
de vida
sem morte
vida vivida, é guerra pronta
bandida
é guerra
que eu vou aprontar
se meu amor não me der esse beijo
que não vai dar
é meu exótico e
por isso mesmo
mais exótico que
eu não sei porque amo
mas se ele for embora
o meu amor,
não sei
onde
eu iria me afogar.

14/05/2010

novíssimos testamentos

só a poesia salva
só ela salta e me pega pelo tornozelo
quando a cidade me invade
pelo buraco do ar condicionado

só a posia salva
quem vai se atirar
só ela salva meu espanto
desalento

onde a letra vida vem e põe magia e pega
quem já vai já vou caindo pelo buraco frio
do ar condicionado

onde mora a gelidez,
o desencanto.
Pra subir até minha casa eu preciso:
de um ônibus,
um pouco de dinheiro,
um bom horário,

e muita energia
pra subir
o morro
todo
lá longe
a 400 km do meu coração.

09/05/2010

Tá muito bom? Divida,
tá difícil? Divida.

Não é dívida,
é via das dúvidas,
vida.

04/05/2010

Tem um mar dentro de mim
as ondas são minha respiração
tem uma amêndoa
tem um mapa um país
e isso desejo se dispersa
em cada célula
átomo ou menor.
Nuvem que está no mundo
me disperso e pra todo lado me vejo
e me vejo mais
quanto mais percebo as coisas ao meu redor.

Você por si só

Fui para o mundo sem você
pra ver
no que dava.
Deu.
Meu mundo por ora
é o melhor passo.
(quanto melhor for eu no mundo.)
Tanto melhor
quanto mais ao lado
meu
seu mundo for dar
passo.
Afora
ou adentro
de ver eu no mundo em que passo.

02/05/2010

Me desconcentro
me reconcentro

nesse tempo

máximo

caos
concêntrico.
O ruim vem
o ruim vai
larga ilusão
breve mar.
Parte tu, Parte mim
Partitura
você eu
que
te me
acalma.
Não, não veio,
Esse é o mundo que passa
Essa desgraça
Não bole com minha bula
que de mim não fala
Manual de uso
se cala
diante do tic tac do relógio
insano
Razão domínio
público quieto
na teoria do caos calado:
Não sentir,
regra básica.

Partitura

Amo te amo te amo te amo te
quero te quero te quero te quero te
calo te calo te calo te calo?
que espero que espero que espero que espero que

te ame te ame te ame te ame te
como
bem
como
assim
como te amo te amo te amo te
amo te.
Amanhã vou embora
mas até amanhã tem chão.
Até a mãe crava os dentes
no que não pode,
nem desce
nem trata
digestão ingrata
interpérie:
meu nome.

Nada me explica ou me fode
na pressa digo:
não me abrace
ou venha
e então me incendeie
e devore.

28/04/2010

O que posso

A minha vó
a minha velha
velha boa:
sorriso e Cecília.

À minha vó
tudo a ela
o que posso
apenas.

Pouco choro, muito amor e uma vela:
todo dia.

27/04/2010

O primo voltou
alegre
belo
lindos olhos
voltou.

Voltou primo
pé no chão
mão na mão
pé com pé
do mesmo
sapato
calço-família.

A vó foi.

O primo
voltou
homem
voltou.

Mulher?
mas
como?
eu
não
eu
talvez
eu
sou

Mas pra primo
nada mais chato
óbvio
nada
mais
reconfortante.

Eu não sou Ana
não sou olhos boca
não sou.
E nem seios
nem beiço.

Ô primo.

Sou só
família
menos
língua
sou tátil
sempre frágil,
menina
sou prima
e
sempre
e pra mim
mesma
anos luz atrás
e a frente,

anos nós.

Aqui
o

clã

únicos

coração.

Voilá:
o primo
voilá:
eu voltei.

19/04/2010

Sincronia

Supra
o sumo
que é a poesia

Com
a vida
e o tesão
que há no dia-a-dia.

16/04/2010

Fogo n´água suja

Também não quero ficar te vendo nú,
o cheiro molhado basta já.

Castra a vontade
uma mágoa encandecida.

Desejo que não bate
mas fica:
fumaça da água fria numa panela quente
ou de fósforo
ou guimba
que se apaga no vaso sanitário.

14/04/2010

Perdi.

Buraco sem fundo
sem nome,
pronome

muita causa, pouco efeito
nada feito

bailando no ar,
ora sou
ora arrisco

às vezes amo.

Buraco sem nome
pronome
sem fundo

Afundo?
Arrisco.


Sempre escuro
longe e tudo
perto
do umbigo
claro
do mundo

Vida passa em paralelepípedos.
Cansados de tensão e prazer.

Me encontro no ar que vivo,
vivemos nos humores meus,
seus,
vivemos nos nossos desejos,
tesões,
tédios.

E o ar em torno
É pesado, nuvem preta,
ou colorido grama jardim.

Me ligo no meu desejo quando expiro esse ar

Cada respirar é um não
ou então essa dor
que aspira ao mundo inteiro.

13/04/2010

na curva

Fim do mundo,
fora de tudo,
longe de você,
perto do teu desejo.

Eu vou
se você não for
mas se for
relembre
que eu estou aqui
até encontrar
um lugar em que você não esteja
e aí,
aí sim,
ficaremos juntos.

07/04/2010

Sonho é reles
sonho é pouco
se eu, parca,
medíocre,
sou objeto
que te desejo.
Eu vou dar no couro
vou fugir
sabotar meu consolo
proferir
que já fui
desde quando
vc me quis
e eu já tinha desejado
não estar nunca mais
aqui
Sonolência que acaba de acordar
que me pega pelos tornozelos
quer bocejar os sonhos, pra fora
mas depois correr atrás, pelas janelas, portas, pelo sonho que sonhou

Esfomeada
quer no café-da-manhã comer a vida

05/04/2010

De quantas formas eu me calo?
Por qual medo eu não me espanto,
não berro, não urro?
E será que eu só engulo meu susto?

Por que não falo?
Que razão é essa?
Que razão presta
pra aniquilar o que sinto?

Depois de me calar,
tudo o que eu digo, ando, faço,
dolorida,
eu minto.

04/04/2010

coisas que eu penso quando sinto a vida parada


Eu posso não acreditar em mais nada.
Mas não há como não acreditar na vida.
A vida é.
Antes de se inventarem os objetos,
ser
é um verbo intransitivo.
mundo manco, um tamanco só.
mundo banguela, buraco onde a dor jorra
encharca o mundo -
mas bate e não volta
pois quem recebe
faz de conta que não sentiu
o sangue
elameando cada testa
entrando pelas narinas
e se instalando
em cada coração.

03/04/2010

Um espancamento bastaria
pra secar esse poço de raiva
incessante

Jorra feito água
feito raiva
e é claro
feito razão

Feito que está arraigado
feito que me faz,
que me refez

desde quando eu me engoli:
meu modo, minha vontade

Como gota que não cessa
gota constante
gota
que se espalha sem limites

Carcaça que atravanca:
me arranca
porque me rói
e já nem dói
apenas me move,
me abre e atiça,
eme joga ao ar
nessa pirambeira também espinhosa.

A raiva passa
quando vira SOCO,
isto é,
quando vira um salto
dessa minha vida,
que é como o pensamento,
pra quaisquer melhorer dias
que são como:
dia-a-dia
explosiva,
a minha ação.

01/04/2010

Aliteração

viajar
ou partir pruma viagem só
no mesmo lugar de enlouquecer?

transloucar partido,
ou viajar, uma via móvel?

não sabia.
nunca soube.

se essa calma é um silencio paz
ou se essa paz é um descuido morte

historinha de Mestre/discípulo...

fábula que escutei numa roda de conversa...
(adaptada)

- Parece que têm dois lobos dentro de mim, brigando... Eles querem coisas opostas... Como vou saber qual deles sou eu realmente?
- Você é o mais forte, o que vencer a briga.
- Mas qual lobo vai vencer?
- Aquele que você alimentar."

27/03/2010

quis te explicar tudo:


meu "não"

era um não ter a mim.


assim,


com qual corpo

eu ia querer você?

26/03/2010

"Vida", Chico Buarque - é isso.


Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia
Mais doce da vida
Na mesa dos homens
De vida vazia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Verti minha vida
Nos cantos, na pia
Na casa dos homens
De vida vadia
Mas, vida, ali
Quem sabe, eu fui feliz

Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa,
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida
Nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens
De olhos sombrios
Mas, vida, ali
Eu sei que fui feliz

http://www.youtube.com/watch?v=BoEY6TXcgR4

25/03/2010

viververia


Quem não queria ser uma vez, uma vezinha, o que não é?

quem não acha que aí sim estaria olhando pra si, quem é que quer fugir de si,
quem é que quer fugir por
não saber ainda
que porra de "si" é essa?

eu quero.

queria ir tão longe, voar voar, que ao fim de tudo, longe, reles, parca, fumaça, eu, assim,
me veria.


24/03/2010

Saciar


Eu poderia escrever pela vida inteira,

preencher com palavra

todos os espaços

vazios.

Dobras,

nervuras,

interstícios,

ligamentos.


Mas aí faltaria melodia.


E então, música:

movimento, dois acordes,

um compasso diário.


Faltaria amor


...e eu seguiria com o cavalheiro,

lhe concedendo a honra de dançar uma valsa.


Rodopiaria pelo salão,

num vestido imenso

brega, azul.


E aí me faltaria a palavra.



música

passos largos

a melodia é meu corpo todo - curvas e culotes no espaço.

e os tijolos do chão são a base quadrada 4 por 4

dessa harmonia esquisita.

cal

todos os meus órgãos estão brancos

e talvez vazios

teu amor faria quadros lindos

na minha tela lisa.


amor


eu achava que era um sentimento muito complicado

- picadas constantes de adrenalina, ou

uma fortaleza -

mas aí vi que é

não sentir solidão.

22/03/2010

Quando dá errado,
escrever é a revanche.



Você é lindo.

Eu sou complicada.

Você é simples,

eu sou linda.


De tanto desentender já me entendi:

e não sei dizer mais nada.


Expressão


Depois de dizer que eu te amo,

olhei meu rosto no espelho e, pela primeira vez depois de muitos anos,

me reconheci.



Óculos escuros


Pra me fechar um pouco.


Suturar esse tosco coração

primitivo e torto.

Errado.


O sol na cara é luz demais.

Meu peito é fraco e tonto.

Zonzo. Tanta beleza não cabe no que quero.


O que quero é pouco, fraco, parco.


Preciso fechar meus olhos pra não querer

- tão aberta -

pra não querer tanto

coisas tão rasas.

Por que não sei escrever quando estou contente.


A tristeza é lenta,

O prazer é ágil.

(claro que nem toda a rapidez é feliz).


O prazer é do corpo, é sede que move,

é a sede e a satisfação juntas.


A dor caminha.

Mas aceita - e quase goza um gozo sofrido -

quando pára

e se debruça sobre uma folha de papel.


Folha leve,

tempo lento.

Tudo escorre,

se esparrama.

A dor escoa

no ritmo que quiser.


(batidas na cadência de um jazz

e baquetas raspam na caixa,

caem junto com o compasso)


Já a alegria,

explode.


E não me deixa continuar aqui sentada.


no sinal fechado...


Não é pressa,

é só a velocidade da minha aflição.

18/03/2010

como vai? (rabisco)


como seria possível?


como?


só me pergunto isso.


o meu desejo não cala,


a doença é a vida no corpo que não cala.

que vira bicho.


como?


mas como, como???


mas não sei.

mas não sei mesmo.


mas, sozinha, não sei.


e eu sei que.

tenho ate medo de dizer.


e.

agora, como?


já matei tudo o que me fazia bem, então quero morrer.


isso não é coisa que se poste, que se bote, coloque, deixe verem.

isso não é.


isso sou eu exposta, tão rasa, tão pouca.

tão só o que sinto.


tão só.


é pouco.


é pó.


eu vivo.

mas só da pele pra fora.


eu não tenho dento de mim.


eu não sei como ir.

17/03/2010

Tem um buraco no chão que não quer abrir.
Buraco no meu vão,
Meu pé oco.
Buraco torto, acompanha a perna.
Buraco que sobe pela pele inteira.
Rôto, franzido.

Buraco que não sai de mim.
Que não pára
de não ter
o meu chão.
E se eu dissesse que te amo, o que vc faria?
O que isso mudaria?
E se eu não sei em que cidade quero morar?
E se eu apenas sei, mas tenho medo?
E se eu te amo pela vida inteira?
E se estou enganada?
Ou, pior, se estou certa?

E se você não me quiser?
"De todos os homens que conheço o mais sensato é o meu alfaiate. Cada vez que vou a ele, toma novamente as minhas medidas. Quanto aos outros, tomam a medida apenas uma vez e pensam que seu julgamento é sempre do meu tamanho."
George Bernard Shaw

15/03/2010

Eu vou

me atirar

correr mundo,

revirar...

Vou me abrir tanto, tanto,

que ao final o que vai haver é uma pessoa ordinária,

daquelas que os outros - só os tontos - se constrangem. Enrubescem.


Louca, despedaçada, rasa, rasa,

exposta.

Nada por dentro, só pra fora,

só emoção, só sensação.

Igual a todas.

14/03/2010


A vida vai
direta, vai
pra cima,
frente,
rápido,
rumo ao leste.

Vestida de um
vestido.

Vida branca,
colorida,
brilhante.

Vida vai
pra cima, rápido, pra frente.

Vida sobe
se a gente vai
os dois
juntos.

13/03/2010

como na bicicleta, no avião, no peão, na vida:
em movimento se tem mais equilíbrio.

Para pegar no sono:

natureza, por favor, me engula
Agora que a insônia fincou pé, parece que eu entendi:
ela só passa quando eu mudar.

tentar dormir de espírito muito cheio é como tentar dormir de estômago muito cheio.

12/03/2010

Eu gosto da selvageria,
da bagunça,
dos gostos,
do gostoso.

Eu gosto do cheiro
e do prazer
louco
de chegar
à tardinha numa casa,
todos,
e exaustos,
depois do dia.

O sol ainda queimando a pele
e a casa cheira à fogo,
à alguma fumaça.

O amor existe quando a gente já nem se lembra dele.
Um balde de ordens
corrosivas
é derramado sobre
o amor.

Escorre raiva.

Para fora -
rebelião,
insurgência,
defesa.

Para dentro -

um balde de ordens
corrosivas
é derramado sobre
o amor.

Bafo Quente

Um grito me arrancou da cama.
Eu me arranquei.
Todos os berros berraram
pra dentro de mim
corrosivos.

Agora tenho vontade de esmurrar,
de dar porrada,
muita porrada.

Onde???
Só posso
na minha própria raiva???

Um grito me arrancou da cama.
Todos os gritos,
berros,
gritaram.
Da minha vida toda.

Estive dentro de um baú
escuro,
embaixo de alguém
a quem já amei.

Tomando,
me mordendo, engolindo,
chupando,
tomando.

E agora
a quem posso dar porrada,
onde,
senão contra minha raiva,
contra mim?

Mas
quem é que me
subordina,
subjulga,
submete,
esmiuça,
esfacela,
emudece,
diminui,

Quem, senão
eu mesma?

A INSURGÊNCIA
É URGENTE

contra
nenhuma outra pessoa
mas
apenas
eu.

11/03/2010

O telefone me tirou da cama.

Hoje de madrugada eu roubei o cabelo de um bicho muito estranho, o mais feio deles. E usava esse cabelo.

Todos os mais queridos estavam. Aliás, os mais distantes.

O mundo era uma briga, uma corrida. Uma revolta de uns com os outros - sem saber direito o porquê.

10/03/2010

onde está a minha alma,
perdida, encarcerada,
em algum lugar desse ar?

em que rodopio me alcanço
pra sentar a bunda no chão e simplesmente estar?

(isso é voar)

06/03/2010

Eu sou que nem
aquele vidro quebrado
losângo reto e rôto,
torto já que estilhaçado.

Luz cortante entra por ele
e atinge o meu pedaço
rôto, torto, reto, quebrado.

05/03/2010

coisas e afins

objetos industriais
reviravoltas mecânicas
a casa cheia
nessa vida que não há nada.

adjetos
abstratos
insolentes
indigestos

objetos
obsoletos
inconstantes
incompletos

e essa fome de quê?
do que
aqui
não há.

04/03/2010

Escapatória

de Pablo Neruda.
(traduzi livremente)

Quase pensei dormindo,
quase sonhei no pó,
na chuva do sonho.
Senti os dentes velhos
ao dormir, talvez
pouco a pouco vou
me transformando em cavalo.

Senti o cheiro do pasto
duro, de cordilheiras,
e galopei até a água,
até as quatro pontas
tempestuosas do vento.

É bom ser cavalo
solto na luz de Junho
perto de Selva Negra
onde correm os rios
escavando espessura:
o ar penteia ali
as asas do cavalo
e circula no sangue
a língua da folhagem.

Galopei aquela noite
sem fim, sem pátria, sozinho,
pisando barro e trigo,
sonhos e mananciais.
Deixei atrás como séculos
os bosques enrugados,
as árvores que falavam,
as capitais verdes,
as famílias do solo.

Voltei das minhas regiões,
voltei a não sonhar
pelas ruas, a ser
esse viajante opaco,
das barbearias,
este eu com sapatos,
com fome, com óculos,
que não sabe de onde
voltou, que se perdeu,
que se levanta sem
pampas pela manhã,
que vai se deitar sem olhos,
para sonhar sem chuva.

Apenas se descuidem
eu vou para Renaico.
O tropeço do palhaço,
laço do sapato frouxo
calço frouxo, e tá solto o cadarço

o sapato é frouxo
o palhaço é macho
macho pacas, macho pra
levar sarro, escracho,
macho pra sentir na pele o que o outro passa
e que passa pro lado
pra não sentir na pele

o palhaço não repele
engole, inventa, devolve,
deglute, degusta,
o palhaço busca
sem saber o que vai achar

e o palhaço acha
e descobre, gargalha,
e ri

o palhaço tropeça
espatifa e não racha.
o palhaço é graça.

03/03/2010

Atinge, invade,
corta o peito.
pinga o sangue.

que marca - pra trás -
o caminho de onde eu vim.

01/03/2010

Atmosfera


Agora

escorre vento pela testa

beija a mão.


Agora

beijo antes

o homem de quem me despedi,

beijo a boca com que me despi.


Escorrega o vento

agora.


Como sal,

lambo a nuvem - mas só a olho e nada mais.


E subo muito rápido

e beijo inteiro

engulo

parte por vez,

mais tarde,

todo esse ar.


de Mauá para o Rio


manhã que não estou lá.


amo um amor

que veio comigo e chegou até alguém

aqui.

amo um amor de montanhas, de rios, de espera. de silêncio.


que nesta cidade não há.


que está em mim

guardado

está parado em mim.


a neblina, a extensão, montanhas enormes

e a saudade

são o amor que eu amo.


19/02/2010

Ceciliana

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

"Motivo", Cecília Meireles.


Ela é ela, maior,
eu sou eu.

E agora é
descabido
não ser alegre nem triste.

Sou poeta
só onde me dói.
tem um carnaval dentro de mim
querendo pular rasgar fuder

tem carnaval saindo pelas orelhas
olhos e goelas acima
querendo ver

tem carnaval doido pra estourar.

e as paredes guardadas são pequenas,
estúpidas,
sovinas,
e não sabem dançar o frevo.

08/02/2010

inversão

minha enorme vontade de morrer:
minha enorme vontade de viver.

assim,
um "mal secreto"
e um bem incompleto,

já existo.
ponto.

07/02/2010

Memória

Parece que estou morta, só que viva.
Parece que não minto
e meus cílios estão colados.
Minha sonolência parece minha boca fechada.

O desgosto sob a língua
e nunca mais vou ver ninguém.

Parece uma lembrança que não vem
mas não se desagarra de mim.

Não vivo porque não vivo o que acontece lá embaixo na rua.

Não vivo agora.

Eu nunca vivo hoje.

05/02/2010

Cada miligrama que penso é um tempo parado,

espaço de um
peso
morto.

Sem capim, sem palha
ou selvageria.

Sem baderna, caos,
alegria.

Morto,
gelado,
o desejo é demora.

Porém
esse frio me refresca:

O tempo que pára completo
refloresce
dos riscos outros de fora.
minha enorme vontade de viver:
minha enorme vontade de morrer.

como se desse jeito,
mal já feito,

eu me bastasse.

22/01/2010

Interrompo.
Corto.

Abrupto

Fujo da chuva,
fujo para a chuva que me cai,
que caio,
caio em mim.

Corro na chuva.

Fujo
do que
atravanca.

Corro,
caio na zebra, na boca do lobo.

Escorrego pelo limo
mais baixo
do que eu já me vi.

E subo as escadas muito em pé
para parar de romper
para cerzir, coser,
refazer

Corro, fujo
saio do mundo
e aniquilo o rumo.

Rasgo fundo,

E aí sei continuar.
Tarde que não se acaba.
Passo, tardo, penso.

Clichês sinceros
numa tarde de quarta
muito madrugada de segunda-feira.

Insônia da noite
é sonolência do dia..

Vivo razo,
morro fácil.

Boiando
na banheira da casa
dentro de um verão carioca.

19/01/2010

Pego a minha viola, canto, e nada sai.
Não é viola, ô estúpida, é uma caneta.
Anoto.
Finjo ser triste.
Anoto.
Perco a ideia.
Entristeço.
Penso que não vale mais a pena.
Penso que não sinto mais nada.
Não vivo.
E aí,
e a vontade?
Isso que imagino,
isso é desejo ou é hipótese?
Tanto faz,
foda-se,
Vida é carga que se recarrega.

13/01/2010

Pílula pro coração

Pontinha de morro
montanha
ou muro

Neve
neblina
ou jato de carro-pipa

(quem sabe até
fumaça de caminhão)

Qualquer paisagem
bucólica, urbanólica,
dentro desse lixo abafado de uma gente zumbi que buzina, desesperada sofre, grita, cria: derrames, convulsões, enfartos cardíacos.

11/01/2010

Carlos Drumond de Andrade

para o Fabricio.

"O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar."


09/01/2010

Noite que eu não durmo

Formigamento e enervadura,
rompição de laçarote.
Rompimento dos nervos axiais. Axiomáticos.

Ligadura do que não sai do jeito que eu quero porque não é do jeito que eu quero.
O que não É
e não pode ser.

Enervamento dos calos das unhas do meu pezão. Meus cabelos. Irrigação.

E esse homem que eu amo que eu amo que eu amo.
Eu espero.
Eu espero você chegar em casa e no meu coração tem formiga.
Mas eu espero.
Isso é amor.
Isso é amor e eu tenho tanto medo. Tanto medo de destruir.
Me sinto capaz.
Destruir.
Só me sinto capaz de destruir.
E no entanto
por ora
apenas sinto que no meu peito na minha caixa toráxica tem formiga.
......
Eu espero.
Eu quebro meus ossos nessa espera,
trituro.
Até sangrar pelo dedinho e sentir a fome funda do oco do estômago ao topo da cabeça.